A emigração de atletas de alto rendimento: o Voleibol brasileiro no contexto mundial.
Ao longo das décadas de 1980, 1990 e deste início de terceiro milênio, o Vôlei Brasileiro adquiriu o status de melhor do mundo.
Nossos atletas venceram e ganharam tudo o que seria possível conquistar: medalhas de ouro olímpicas; circuitos mundiais; grand-prix; campeonatos mundiais e regionais.
Esta é uma ótima razão para nos sentirmos orgulhosos de nossas equipes, masculinas e femininas, coordenadas competitivamente pela CBV.
À primeira vista, estas conquistas e glórias aparentam ter somente pontos positivos. O ego e o orgulho de ser brasileiro aumentam. O Brasil passa a ter uma imagem internacional melhor no mundo do esporte e é referência, líder, no Vôlei. Nossos atletas se tornam famosos e são requisitados para mais jogos, eventos, marketing de produtos e serviços, de tal forma que a renda conjunta deles, salários no esporte mais propaganda cresce e dispara. Nossos treinadores e coaches, professores de vôlei e massagistas, recebem melhores remunerações e criam um mercado internacional para si e as gerações vindouras. Os canais de televisão e a mídia em geral pagam mais por transmissões do Vôlei e por entrevistas. Nossos atletas e treinadores passam a fazer parte do circuito dos oradores afortunados, que ganham um bom cachê ao darem palestras. E assim vai, a renda e a mobilização a favor do Vôlei crescem sem parar.
Contudo, este lado sadio, positivo, mundo de mar de rosas, também esconde os seus problemas e contrapontos. Por conta do próprio sucesso, o Vôlei também precisa enfrentar novos desafios, espinhosos, o que pede novas formas de pensar, de agir e de ver o Vôlei. Isto, pela comunidade voleibolística em geral. E esta comunidade inclui os dirigentes, os atletas, os treinadores e todos os seus auxiliares. E mais: adiciona os patrocinadores, os promotores de eventos e aqueles que fazem do Vôlei uma modalidade esportiva, de lazer, que também virou um negócio profissional.
O fato é que o sucesso traz consigo vantagens e desvantagens. E entre estas, merece atenção o fato de que com tantas taças e vitórias na mão, os nossos melhores atletas voleibolísticos tornaram-se o objeto da cobiça esportiva mundial. Os clubes do exterior, de mais de 73 países, contratam nossos superstars a preço de ouro, pois sabem das vantagens que superatletas geram para as suas ligas, associações, eventos, campeonatos e arrecadações financeiras.
Atrair para o seu país uma estrela de primeira grandeza, vinda do Vôlei brasileiro, para atuar num time de ponta, virou uma meta estratégica para inúmeros clubes no mundo.
Por um lado, isto nos regozija, é o justo reconhecimento da nossa competência e supremacia no esporte, após tantas décadas de sacrifícios e lutas. Por outro lado, a emigração de atletas, jovens supertalentosos e únicos, malabaristas da bola, com jinga de corpo completo, gente elástica com pule de dez, é lida em certos círculos com apreensão e a necessidade de pensar a partida dos nossos compatriotas ao exterior com precaução e alguns cuidados.
A emigração permanece muito mais como uma exceção, do que uma regra, no comportamento humano e das populações. Um número muitíssimo maior de pessoas e de atletas permanece no país de origem, do que parte ao exterior.
Contudo, porque os superatletas se destacam no meio da sociedade, são objeto da curiosidade pública e dão o exemplo, que de certa forma influi e afeta o ego dos cidadãos e do mundo empresarial, eles se constituem num grupo que merece a atenção dos analistas.
Nas seções que seguem, vamos analisar este assunto com maior atenção.
A partida de jogadores ao exterior: um fenômeno localizado ou efeito de força maior.
Num ponto, os analistas estão de acordo: o principal fator que determina o fluxo migratório é o diferencial entre renda local e no exterior.
Os atletas querem se realizar profissionalmente na vida e olham para o fluxo de rendimentos presente e futuro que recebem e receberão tanto em seu país de origem, quantos no exterior. Isto é, eles comparam os ganhos no Brasil, com os Estados Unidos, o Canadá, a Itália, a Espanha e outros bons receptores de jogadores.
Quanto maior é esta diferença de renda, com pagamentos maiores nos paises desenvolvidos, maior é a probabilidade de um brasileiro emigrar, ir para fora.
Mas isto não garante renda permanente, nem sucesso nas quadras estrangeiras.
Alguns cidadãos fazem sua vida no exterior com sucesso, enquanto a grande maioria, estima a professora Sueli Siqueira, da Universidade Vale do Rio Doce, em sua pesquisa junto a 200 brasileiros que voltaram a Governador Valadares, voltam com as mãos abanando e pequenos ganhos, ou 50% dos imigrados - os que voltam (in: Emigração para os EUA, Richard Lapper, 2.008).
No caso dos jogadores atletas, é preciso definir seu perfil e quem são eles. Em especial, eles se constituem num grupo pequeno, que nasceram com características especiais e desenvolveram seus talentos, de tal forma que são especialistas e possuem um notório saber. No caso, esportivo. Eles possuem alto rendimento, são superprodutivos no que fazem e em equipe desequilibram um jogo, a favor de seu time.
Levantamento da CBV mostra que na temporada 2007/2008, a idade média dos atletas no exterior era de 26 anos e meio – vide o quadro 7; 48% dos atletas do vôlei eram do sexo feminino e 52% do sexo masculino, conforme o quadro 9. De uma amostra de 100 atletas, 86% atuavam na Europa, dados do quadro 8.
Como efeito, ao se destacarem no Brasil e no exterior mediante competições, esses superatletas se tornam objeto da cobiça internacional. Nos paises desenvolvidos, onde o mercado esportivo é visto como um negócio rentável encontra-se a mídia de tecnologia avançada, que repercute fatos e imagens ao mundo globalizado. Então, os jogadores superatletas ao serem repercutidos ao mundo, possuem seus salários assumidos por tantas redes e empresas patrocinadoras, quanto houver, interessadas em transmitir os jogos de seus clubes no planeta.
Isto permite que os centros mundiais de tecnologia e mídia atraiam para si os superstars, o que aumenta o diferencial de renda e de salários entre os países receptores – ricos e os paises doadores-pobres ou em vias de desenvolvimento.
Criou-se de 1990 em diante o mercado de trabalho globalizado dos supertalentosos. Alguns, como Tiger Woods, o taco de ouro e menino – prodígio do golfe, nascido nos EUA, o país mais rico e que melhor paga atletas no mundo, ficam no país onde estão. É óbvio, pois entre salários estimados em US$ 7 milhões ao ano e gordos contratos publicitários e de marketing, que exploram com inteligência sua figura calma, viril e esportiva, de mais US$ 93 milhões, num total de US$ 100 milhões, destaca-se o topo do rendimento e vale a pena ficar onde se paga melhor.
Mani Ramirez, o basqueteboleiro melhor pago da história, em 2.004 ganhou US$ 22,5 milhões pela temporada. Um valor disparadamente maior que os US$ 3 milhões recebidos por Jim Rice em 1.984, como jogador do Red Sox e do basquete norte-americano.
Os empresários de superatletas trabalham não apenas sobre a capacitação esportiva e o rendimento de seus jogadores. Eles buscam um conjunto de elementos que valorizam aos olhos de empresários da mídia, das indústrias, das telecomunicações e da sociedade em geral, a figura dessa pessoa atlética. Entre estes elementos, destacam-se a beleza, a simpatia, a habilidade de falar bem, a empatia com o público, a credibilidade, a imagem ética e bem comportada, a capacidade de fazer de si notícia e a flexibilidade nos movimentos nacionais e internacionais.
O que justifica salários e contratos empresariais maiores aos atletas é a capacidade de repercutir campeonatos e jogos, assim como produtos e serviços, em rede local, nacional e mundial, num movimento de rendas de merchandising aumentado pela criação recente, de 1.990 para nossos dias, de novos canais de distribuição, como televisão globalizada, canais abertos e Internet.
Um maior, mais rico e mais variado mercado afluente foi e é conquistado a cada momento, com estes novos meios de comunicação, que permite globalizar eventos esportivos e ratear o seu custo pelo mundo. Logo, o custo médio per-capita da transmissão de um mesmo evento cai, o que permite remunerar soberbamente os superatletas (vide Ben S. Bernanke). Estes são uma exceção, no que diz respeito ao item remuneração e não a regra.
Estudos mostram que a emigração é explicada por numerosos fatores e não por uma variável isolada. A emigração mexicana, por exemplo, é função da renda mais alta que se paga ao trabalhador nos EUA; da infra-estrutura oferecida; dos investimentos públicos; e também de empreendimentos e oportunidades esportivas. Embora não estudem e apresentem o vôlei, os dados de migração fornecidos no quadro 5 mostram que o futebol leva mexicanos aos EUA, o que não ocorre no caso do beisebol e do basquetebol (sinalização negativa).
No vôlei, este fenômeno global também sucede. Não há como pará-lo. Ele faz parte da lógica dos novos negócios mundiais. Por isto, um jogador sensacional como Giba pode fechar na Rússia um contrato estimado em US$ 1,1 milhão, e ele passa a ser um embaixador excepcional do saber, do talento e do diferencial esportivo e voleibolístico criado por ele mesmo, pelo Brasil e a CBV.
A emigração de atletas brasileiros num contexto maior.
A partida ao exterior de jogadores de alto rendimento preocupa naturalmente o país, os dirigentes esportivos, os torcedores, os espectadores midiáticos e os empresários locais.
Perder um atleta que foi educado e treinado durante longos anos no Brasil, para o exterior, representa a perda de investimento que se fez em capital humano, um talento a menos que deixa de jogar nas quadras e que deixa de interagir com os pares.
Por outro lado, o atleta que vai ao exterior melhora a sua remuneração; ganha em divisas, como euro; treina numa infra-estrutura esportiva de país desenvolvido; mora melhor e sente os benefícios se estiver em cidade rica do progresso, da segurança e da boa saúde pública.
Para o país, os resultados da partida de superatletas ao exterior são ambíguos. Os levantamentos de dados de renda, tributários e de remessas são muito imprecisos. Estima-se que boa parte da renda ganha no exterior fique lá fora, dirigido ao consumo de bens e serviços, sendo 60% do orçamento familiar dos jogadores estrangeiros nos EUA e na Europa, destinado à compra de eletrodomésticos, móveis e carros; 31% de destine a impostos e 9% apenas se dirija à compra de imóveis e para fazer um pé de meia ao voltar ao Brasil (Beatriz Padilha, CIES).
Remessas do exterior, ao Brasil, interessam, se são grandes e geram um fluxo contínuo. Este é o caso das remessas dos dekasseguis, os 225.000 brasileiros que vivem no Japão e que remetem por ano US$ 3,7 bilhões aos seus familiares (Lytton Guimarães, NEÁSIA). Isto gera maior bem-estar às famílias brasileiras e é uma fonte de renda importante para os que ficaram Mas estes cidadãos, diferentemente dos superatletas, que são uma mão de obra especializada, não ganham grandes salários e vivem de trabalhos braçais, na base da pirâmide de rendimento japonesa.
Estima-se que no total anual, os emigrantes brasileiros remetam US$ 6 bilhões por ano (Panorama Brasil).
Considerado que segundo o IBGE um cidadão é definido como “rico, quando aufere renda mensal acima de R$ 2.200,00”, em 2.004, a simples remessa anual de US$ 47 mil, à taxa de cambio de R$ 3,07 por dólar, ou R$ 12.024,16 ao mês, é 5,46 vezes o valor do brasileiro “rico”.
Destes valores, se conclui claramente que a remuneração no exterior exerce um fascínio compreensível aos atletas que conseguem se transferir a um clube de primeiro mundo.
Contudo, esta transferência tem o seu período de vida determinado pela capacidade do atleta ser útil e produtivo ao clube. Quando sua produtividade cai, seu contrato deixa de ser renovado lá fora e a volta pode ser bastante custosa.
Ademais, embora não existam estatísticas precisas sobre os rendimentos individuais por atleta, obtendo-se as informações de modo pontual, é certo que uns poucos mega-astros concentram os rendimentos da própria categoria dos supertalentosos.
Fatores econômicos e emigração.
A emigração brasileira ocorrida dos anos 1980 em diante possui uma significativa característica de ordem econômica. Associa-se a inflação e variação cambial.
Inflação descontrolada cresceu de 1986 em diante, de tal forma que no início da década de 1990 as taxas de inflação sugeriam a aproximação de um exercício de hiperinflação. De fato, em 1992 a inflação medida pelo IGP-M bateu em 1174,47%, em 1993 ela ascendeu para 2567,46 e em 1994, ano da implantação do estabilizador Plano Real, que mudou a moeda e pôs o país no rumo da busca firme da macroestabilidade econômica, ela ainda montou a 1246,62% - vide o quadro 10.
Estes dados mostram que a persistente e alongada superinflação brasileira viera para ficar. E com ela, surgem as mazelas da inflação. Fundamentalmente, a inflação é uma alta continuada e persistente do nível de preços. E com isto ela corroi e destrói o poder aquisitivo da moeda.
Logo, no meio da crise monetária, à qual se acrescentou o aumento vertiginoso da taxação tributária das pessoas físicas e jurídicas, os brasileiros empobreceram. Entre 1994 e 2004, a carga fiscal, uma razão entre o volume arrecadado de impostos e o produto interno bruto (PIB), subiu de 24% para 34%. E em 2008 esta carga alcançava estimados 38%, tornando o Brasil o país com uma das três maiores cargas fiscais do mundo, com baixa contrapartida volumétrica e qualitativa de bens e serviços públicos a favor do contribuinte e da população.
Naturalmente, como resposta a esta deterioração do meio ambiente econômico, somado à perda e deterioração de empregos no mercado de trabalho, os brasileiros decidiram emigrar em massa.
E entre eles, partiu também entre 1980 e 2006 uma importante elite de super-jogadores, coaches e professores técnicos do voleibol do Brasil.
Estes atletas correspondem, a uma mão de obra especial, talentosa, de primeira grandeza e qualidade, apenas comparável aos talentos que se denominam de cérebros. O talento deles está no físico, na articulação mental, na capacidade de dar respostas rápidas, e na habilidade de antecipar e gerar jogadas de ritmo alucinante. São pessoas raras, e por isto caras, cuja demanda é mundial, no contexto globalizado.
Após o Plano Real de 1994, que ordenou melhor a política econômica brasileira, a inflação foi diminuindo. E mediante a assunção de poderes pelo Presidente Luis Inácio Lula da Silva, em 2003, a inflação passou a ser combatida com prestimosidade e intensidade ainda maior. Ao despencar para patamares de 1,21% em 2005, a estabilidade monetária revertia o processo migratório: o real ficou forte e o dólar passou a enfraquecer. Não valia mais tanto, aos brasileiros e aos atletas, receber em dólares, posto que a sobrevalorização do real em face do dólar alterou e reverteu o contexto: de 2003 em diante, a moeda local se recuperou e quem aplicou em dólares perdeu.
Isto fica evidenciado pelos dados do quadro 10, onde no valor percentual cumulado a variação cambial do período 2003 / 2007 chegou a 92,63%, enquanto a inflação acumulada bateu em 38,37%.
Deste modo, de 2007 em diante, os indicadores mostram um início de reversão: torna-se menos interessante trabalhar e auferir rendimentos denominados em moeda estrangeira no exterior, porque o real valoriza persistentemente, de 2003 a 2007. Isto é, ganhos em real são novamente atraentes. E ganhos em dólar, moeda enfraquecida pelo déficit público crescente nos EUA e gastos associados a guerras na Ásia, tornam-se menos interessantes. No contexto do euro, moeda que é mais forte, o interesse em atuar e trabalhar no exterior persiste, contudo num ritmo menos acentuado.
Brasil: população e migração no contexto do Vôlei.
Ao longo de sua história de cinco séculos, calcula-se que o Brasil recebeu 5,5 milhões de imigrantes. Havia no ano da descoberta 2,2 milhões de índios, que também se miscigenaram com a população afro-descendente original, estimada em 674 mil negros e escravos. Em 2.007, conforme as estimativas do IBGE, teria 190.010.647 habitantes – vide o quadro 1.
Estas evidências mostram que o Brasil teve relativamente à sua população poucos imigrantes e seu crescimento foi vertical. Ou seja, nasceu e multiplicou-se o brasileiro em todo o território nacional, a taxas de crescimento altas, cujo recorde foi nos anos 50 do século XX, a 3,3% ao ano.
Atualmente, os números contam outra história. A taxa de crescimento estimada para 2.007 foi de apenas 1,008%. A taxa de nascimento e de mortalidade para cada 1.000 pessoas é de 16,3 e de 6,19, respectivamente. Logo, a população atual apenas se repõe. E envelhece rápido.
Ao mesmo tempo, a taxa líquida de migração em 2.007 foi de – 0,03. Isto é, partiram mais brasileiros que voltaram e os estrangeiros imigrantes são raríssimos. O Brasil teve um fluxo ao exterior de exatos 5.700 cidadãos, numa demonstração de que a população não quer necessariamente ficar e morar no Brasil e leva seriamente e na prática a emigração como forma de melhorar de vida.
Esta prática diminuiu entre 2.005 / 2.008, com a estabilidade macroeconômica do governo atual, que nesse período conseguiu reduzir a inflação a patamares de pais desenvolvido, entre 1,5% e 6,8% medidos pelo IGP-M da FGV; gerou crescimento do PIB – Produto Interno Bruto entre 4,2% e 5,8%; e formou reservas internacionais de US$ 201 bilhões em junho de 2.008.
Deste modo, as atuais autoridades conseguiram iniciar um ciclo longo que mina e diminui a ameaça de se perderem cidadãos importantes para o país, cuja especialidade, conhecimento e talento são fundamentais para o desenvolvimento nacional.
Com as sucessivas crises econômicas e planos desastrosos sem força política gerados entre 1.979 e 1.993, a moeda desvalorizada pela hiperinflação de 1.700% anuais, ou mais, perdeu sua função de reserva de valor. E aconteceu a diáspora brasileira, que fez emigrar 2,25 milhões de brasileiros e uma média de até 130.000 nos anos mais importantes (Revista Veja, 7-8-1.991).
A fuga de talentos é notória no campo da ciência e tecnologia. Cientistas e pesquisadores, atraídos por boas propostas de universidades e empresas dos paises desenvolvidos, em 10.000, entre 1.981 e 1.990, saíram do Brasil. O Estado não remunerou os cientistas adequada e competitivamente, nem aparelhou os centros de pesquisa e tecnologia conforme as necessidades dos centros de excelência.
No caso específico do Voleibol, o que ocorre é um fenômeno específico de transumância. Este é um tipo bem particular de fluxo migratório. A transumância é um tipo de migração pendular, temporária e reversível, de ida e volta. Corresponde ao deslocamento de atletas e profissionais do ramo esportivo, por um determinado período (anos de vida útil) ou temporada de contrato e após a atividade (atuar num clube), voltam ao país ou área de origem.
A emigração é, sobretudo para países desenvolvidos e ricos, onde a renda e a qualidade de vida são altas. Isto exerce uma atração especial sobre os jovens talentos. Normalmente, os EUA, a Europa e alguns países asiáticos (Japão e países árabes) atraem os emigrantes, conforme mostram os quadros 2, 3, 4, 6 e 8.
O perfil dos voleibolistas brasileiros que atuam no exterior.
Uma questão especialmente relevante para entender-se a razão e a localidade para a qual acontece a partida dos atletas que praticam voleibol, ao exterior, diz respeito ao conhecimento e estabelecimento de seu perfil.
Mediante o uso de dados disponibilizados pela CBV – Confederação Brasileira de Voleibol, para o período estabelecido entre 1º de maio de 2007 e 30 de abril de 2008, obtiveram-se os quadros inéditos que apresentamos a seguir e que permitem a interpretação mais científica da realidade desportiva.
Selecionou-se um grupo de 100 atletas cujos dados formaram o objeto desta análise, o equivalente a 24% dos atletas registrados e referendados pela CBV em 2008 no exterior. Esta representa, portanto uma amostra significativa e robusta do ponto de vista estatístico e configura relevância na compreensão da caracterização dos atletas que atuam nesse esporte e foram ao exterior.
Para estabelecer o perfil do atleta, foram consideradas as idades; o país ao qual ele partiu; o período de tempo dado por um ano calendário de 12 meses; e o sexo.
Resulta que os voleibolistas atuam no exterior com uma idade média de 26 anos e meio, em geral bem jovens. O desvio padrão etário, de 4,16 anos, revela que a maior parte dos atletas viaja ao exterior entre os 22 e os 30 anos. Em relação ao fator idade, a mínima registrada foi de 18 anos e a máxima de 40, conforme mostra o quadro 7.
Quanto ao país de destino, 86% dos voleibolistas atuam na Europa, conforme o quadro 8. Não há voleibolistas brasileiros trabalhando, atuando ou estudando com remuneração nos EUA, de forma marcante. Isto significa que a rota de atuação e de emigração de atletas brasileiros é determinada na Europa com destaque; na Argentina como componente do continente americano e na Ásia. A participação e a presença de atletas brasileiros nos EUA é simplesmente inexistente.
No que diz respeito aos países que acolhem mais voleibolistas, 30% foi para Portugal; 23% para a Espanha; 8% à Suíça; 6% à França ou Argentina; e 4% à Itália ou Finlândia.
Ou seja, 53% dos atletas vão aos países ibéricos. Juntos, 7 paises são responsáveis por 81% do acolhimento de atletas brasileiros no exterior. Isto significa uma alta concentração de jogadores em poucos países do mundo.
Por fim, 52% dos atletas que atuam no exterior são do sexo masculino e 48% do sexo feminino, segundo o quadro 9. Esta é uma distribuição bem satisfatória e eqüitativa, posto que praticamente equilibrada.
Portanto, os atletas que vão ao exterior são jovens, encontram oportunidades da Europa e de ambos os sexos. Desde o fortalecimento do real em face do euro e do dólar e da estabilização macroeconômica, de 2003 em diante, ocorre um movimento de reversão, em que os atletas permanecem no país e diminuem o seu movimento migratório ao exterior, o que mostra oportunidades cada vez melhores para atuar e assentar no Brasil, com o apoio dos clubes, de bolsas de estudos e patrocínios empresariais.
Fatores que determinam e explicam a emigração.
Usualmente, estudam-se os fatores explicativos da emigração mediante “push and pull factors”.
São numerosos os fatores que explicam a emigração de pessoas e de atletas aos paises desenvolvidos. Inexistem estudos apurados, detalhados e numéricos sobre o assunto. Contudo, à luz da literatura existente no mundo institucional e acadêmico e das entrevistas com atletas, pode-se enumerar os principais argumentos que motivam a emigração. São eles:
Os perigos da emigração precipitada, mal preparada e individual. A que ficar atento e as políticas migratórias dos países ricos.
Políticas e movimentos migratórios internacionais continuam sendo centralizados nos eixos do poder soberano das nações. Fazem parte firme das prerrogativas e dos interesses do Estado e das autoridades no comando e com o controle dos fluxos e movimentos de cada país.
Como a política migratória inclui movimentos populacionais de massa; êxodos; acolhimentos permanentes ou temporários de populações por contas de causas maiores, como terremotos, tsunamis, inundações, guerras, guerras civis e afins; perseguições a minorias ou maiorias; perseguições políticas e ideológicas; e outras, os líderes em atividade no exercício do poder tendem a centralizar o assunto, negociá-lo com o Ministério das Relações Exteriores e apreciá-lo no mundo das leis no Legislativo e do Judiciário.
Por ser este um assunto tinhoso, complicado e delicado, nenhum país o resolve sozinho, nem é capaz de fazê-lo. Este é um assunto que lida com o que há de mais precioso, a vida humana, e seu direito de ir e vir, à busca de felicidade onde quer que seja no mundo (EU-wide migration policy needed, BBC News, 2.008).
Os países ricos se confrontam com uma realidade: há mais candidatos à imigração, do que emigrantes locais ou empregos e oportunidades de emprego convenientes para os candidatos a chegar ou recém chegados. E as pressões das ex-colônias e dos países pobres para que os países ricos afrouxem suas exigências na entrada de pessoas é crescente.
Eis também porque este assunto está na iminência e na evidência mundial. Mexicanos, africanos, asiáticos e brasileiros ilegais são comuns e freqüentemente são expulsos dos EUA e da CEE – Comunidade Econômica Européia com grande alarde.
Mas, independente das expulsões, das prisões e das humilhações pelas quais passam os ilegais, que são remetidos aos países de origem em levas anuais superiores aos 16 milhões de almas, constata-se que a desesperança de encontrar oportunidades e vida melhor no país de origem leva inúmeros indivíduos a insistirem em encontrar noutras terras o seu sonho, o Eldorado.
Fazer a América é possível, mas é cada vez mais difícil, num quadro de estreitamento das economias, das sociedades, das legislações, das comunicações e dos transportes num mundo globalizado.
Por estes motivos, quem pensar em emigrar, seja como atleta, seja como cidadão, deverá pensar bem na sua decisão e pesar bem os prós e contras de sua iniciativa migratória. Nem tudo é um mar de rosas, é melhor entender os desafios que podem representar no final desta decisão uma aventura custosa e fadada em 50% ao fracasso, a considerar as experiências vividas pelos cidadãos de Governador Valadares.
Entre os assuntos a serem avaliados, destacam-se os que seguem.
Os custos de transação em que um emigrante incorre são altos, tanto na ida, quanto na volta. No preparo da ida, existe a desatenção potencial que se dá ao que se fazia; os custos de embalagem e transporte de bens pessoais; o tempo e o custo da obtenção de passaportes, visas, licenças, exames e afins; e a despedida do clube ou da associação à qual se está ligado. Na volta, os custos aumentam, caso o número e volume de bens pessoais comprados no exterior tenha aumentado, o que eleva o custo dos transportes; a família poderá ter aumentado, o que implica em maiores custos de viagem, acomodação e passaportes; as remessas financeiras terão taxas e tarifas a serem consideradas. Enfim, se o saldo ao valor atual de uma temporada esperada de x anos for maior que o que se espera ganhar líquido de impostos no Brasil, poderá ser bom considerar um período ou uma vida no exterior, questão de liberdade pessoal. Mas se estes custos e o saldo forem menores que o que se ganha na estimativa no Brasil, é preferível potencialmente aqui permanecer.
A capacidade de revalidação de diplomas obtidos com cursos no exterior. Certos diplomas e estudos, por melhores que sejam no exterior, levam anos e uma burocracia imensa para serem revalidados no Brasil. Em que pese a qualidade baixíssima do ensino no Brasil, problema admitido pelas próprias autoridades, a reserva do mercado local de ensino, às produtoras de educação nacional, ainda é uma dura e triste realidade. Para não deixar entrar o ensino de qualidade e moderno, produzido no exterior, a burocracia pública sufoca e demora nos expedientes de reconhecimento de títulos. Isto empobrece o país e prejudica o atleta que vai ao exterior também com fins de estudos e aperfeiçoamento. É preciso certificar-se de que o diploma ou o certificado obtido no exterior terá validade, uso, no Brasil, após a imigração.
A transferência de fundos de pensão e de aposentadorias. Caso um atleta permaneça longos anos no exterior, ao fim da vida útil ele será bem capaz de querer transferir todo o seu patrimônio, formado no exterior, o que inclui fundos de pensão; seguros atrelados com prêmios e bônus; e aplicações financeiras em geral. É preciso certificar-se de que as operações são feitas na legalidade, com corretude e as remessas são declaradas ao fisco. Caso contrário, grandes dores de cabeça podem abalar a vida do cidadão que retorna do exterior.
Ao partir, o “brain and talent drain” leva consigo um saber e certa juventude no atleta emigrante. Nessa partida, o processo de perda de tecnologias pode ocorrer para atletas de alto rendimento de Vôlei. O melhor Vôlei mundial é brasileiro e o mais sofisticado Centro de Treinamento do esporte fica em Saquarema, no Aryzão, no Rio de Janeiro. Portanto, no exterior, com colegas potencialmente menos talentosos, detentores de uma tecnologia voleibolística mais limitada e com uma infra-estrutura em certos casos bem modesta, o atleta pode defasar-se. E ao voltar, achará mais difícil a readaptação e a reconquista de sua posição anterior no time em que jogava, ou noutro.
A legalidade prevalece sobre a ilegalidade. A emigração lícita, formal, oficial, legitimada, dá força moral e ética a quem a empreende. Por isto, a emigração legal afiança o sucesso do atleta sobre um plano de trabalho e de permanência prévio no exterior. Neste sentido, são bem sucedidos os atletas que assinam um contrato claro e com especificações de suporte financeiro e de moradia no exterior; obtém o passaporte, o visa e as licenças de permanência no exterior, pelo tempo que for necessário e acertado; remetem recursos mediante as vias legais, sendo o Banco do Brasil um banco modelo e referencial internacional para os brasileiros; e se atém à legislação do país receptor.
Integração entre emigrantes. Ao viajar e partir ao exterior, sozinho ou em família caberá ao atleta agir socialmente. Isto é fundamental, pois pessoas precisam da inter-relação social e do convívio harmonioso. A origem, a cultura, os c gostos musicais, e naturalmente o idioma, entre outros, unem os compatriotas. E participar de clubes, confrarias e associações de brasileiros no exterior, assim como de eventos promovidos pelas embaixadas e consulados do Brasil, ameniza a saudade da terra e promove a consolidação de mais e novas amizades.
Conclusões
Fatores macroeconômicos pesam significativamente na determinação da localidade em que se mora e trabalha. O Brasil viveu entre 1980 e 2005 um longo período de emigrações, fomentado em boa parte pela falta de oportunidades de trabalho local; renda em queda; inflação alta e carga tributária elevada e crescente.
Este quadro também afetou o mundo esportivo e dos atletas que praticam o Vôlei.
Contudo, de 1994 em diante, a estabilização econômica foi lentamente revertendo esta situação. E de 2003 em diante, a moeda estabilizou, desmontando os atrativos do dólar e em parte do euro.
Considerada a nova fase de estabilidade macroeconômica do Brasil, em que pesem as ameaças de retorno da inflação com dois dígitos em 2008, os ganhos gerados pela macroestabilidade são sensíveis. Como efeito, os atletas e superatletas do Vôlei passaram a ter melhores condições de auferir rendimentos atraentes no Brasil.
Isto significa que é possível manter e segurar no país os supertalentos, sem que ocorram os altos custos sócio-econômicos da partida desta elite talentosa ao exterior.
Mediante a estabilidade econômica; a adoção de bolsas-auxílio e bolsas-estudo; patrocínios empresariais; cachês de propaganda e publicidades diversas, os voleibolistas podem receber receitas similares é até maiores às existentes no exterior.
O contraponto está no fato de que com a popularização do Vôlei no Brasil, a produção de jogadores capacitados cresceu significativamente. E o número de clubes e de locais que remuneram o esporte é limitado e mais fixo, expandindo-se pouco.
Os 67 clubes da Liga Nacional poderão pagar esta mão de obra provavelmente em novos termos, mais atraente, na medida em que desempenhem com primor jogos e com isto atraiam público crescente às transmissões dos jogos, pela TV Globo e grandes patrocinadores do Vôlei.
Com a implantação da Superliga no mundo, e a modernização da Liga Nacional, os atletas de primeira linha verão seu mercado e suas oportunidades de remuneração aumentados no Brasil. Partir ao exterior corresponderá a uma opção secundária a ser bem pensada.
E mediante a Liga Universitária, os 80% de atletas que obtém bolsas para jogar e morar no exterior receberão bolsas no Brasil, formais e oficiais, que os reterão e manterão no Brasil.
Em relação ao Vôlei de praia, os jogadores são mantidos localmente. Não se perdeu nenhum jogador de renome para o exterior. Somente se parte pela Liga Mundial, contudo com o circuito Voleibol Banco do Brasil de praia, pode-se absorver esta mão de obra qualificada, especialmente a do Nordeste, que corresponde a 52% dos atletas praieiros.
Isto comprova o novo momento do movimento migratório, favorável à manutenção dos praticantes do Vôlei no Brasil.
Para quem gosta de uma leitura extra, sobre a qual também se assentou este artigo e pesquisa, seguem as principais fontes de informação levantadas e utilizadas.
Este é um levantamento exaustivo sobre o assunto, com foco no Esporte e em especial na busca de informações mundiais e brasileiras sobre o Voleibol. Observa-se a riqueza do assunto tratado como principal, ou emigração, sendo fragmentadas as informações acerca do assunto para praticamente todos os esportes.
Última atualização em 11 de julho de 2008.
Fontes Bibliográficas.
Autoria,
Dr. Ary Graça Filho - Presidente da Confederação Brasileira de Voleibol
Professor Istvan Kasznar – Ph.D
Especialista em Economia do Esporte.
10/07/2008
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